Monday, July 06, 2026

Encontros & Desencontros

Andando em círculos, tateando o escuro na urgência de me encontrar, quanto mais procurava um rumo, mais me perdia. Foi quando desisti do mapa que o acaso assumiu o volante. Sem aviso, tropecei no teu olhar. Ali, naquele par de olhos que virou espelho, vi meu próprio peito se iluminar com um sorriso que eu nem sabia que guardava. A vida é uma engrenagem complexa de acasos, onde a física do tempo e a química dos sentimentos precisam se alinhar perfeitamente. Dizia Vinicius de Moraes que a vida é a "arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". Essa máxima resume a beleza e a crueldade do timing: a certeza de que encontrar alguém é apenas metade da jornada; a outra metade é coincidir no tempo. Fomos, por algum tempo, duas almas vadias, inebriadas por uma união lépida e desmedida, flutuando na metamorfose dos dias. Uma paixão capciosa que parecia urgência, mas era apenas travessia. O tempo, esse mestre silencioso, limpou a embriaguez do querer. O desencontro muitas vezes não nasce da falta de afinidade, mas do relógio. Duas pessoas podem ser perfeitamente compatíveis, partilhar dos mesmos risos e carregar os mesmos valores, mas ao se cruzarem na hora errada uma pode estar de malas prontas para o mundo; a outra acabou de fincar raízes. Uma carrega feridas abertas do passado; a outra transborda urgência por recomeços. São almas gêmeas em fusos horários emocionais distintos. O amor precisa de solo fértil, e o tempo é o clima que dita a colheita. Por outro lado, o milagre do timing perfeito acontece em silêncio. É quando a maturidade de um acolhe a solitude do outro. É o instante em que os dois já erraram o suficiente para saber o que querem e, principalmente, o que não querem mais. O encontro definitivo exige que ambos estejam na mesma página do livro da vida, ou pelo menos no mesmo capítulo, dispostos a ler juntos. Quando o relógio da vida finalmente cede e o timing joga a favor, o esforço diminui e o fluxo assume o controle. O passo se ajusta sem passos em falso. Compreende-se, então, que os desencontros anteriores não foram falhas, mas ensaios necessários. Cada atraso, cada espera e cada adeus serviram apenas para calibrar o compasso, garantindo que, quando a arte do encontro finalmente acontecesse, os dois estivessem prontos para o compasso da mesma dança. Hoje, olhando para trás, entendo a lição flutuante do destino: a vida não entrega o que a nossa carência deseja. Ela traz, no tempo certo, quem a gente merece. E o amor mais bonito é justamente esse, que nos aproxima do outro sem nos desencontrar de nós mesmos. LcBertoldo

No comments: